Nas urnas, Rondônia renova recado conservador e deixa para trás nomes ligados à votação que manteve prisão de Daniel Silveira
Resultado das eleições de 2026 recoloca no centro do debate o comportamento da bancada rondoniense em 2021, quando cinco deputados votaram pela manutenção da prisão do parlamentar determinada pelo STF.
O resultado das eleições gerais de 2026 em Rondônia voltou a colocar em evidência uma característica marcante do eleitorado do estado: a força de pautas associadas ao conservadorismo, à segurança pública, à defesa das prerrogativas do Legislativo e às críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF).
Entre os episódios que permanecem na memória de parte do eleitorado conservador está a votação de fevereiro de 2021, quando a Câmara dos Deputados decidiu manter a prisão do então deputado federal Daniel Silveira, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes. A decisão foi aprovada por 364 votos a 130, com três abstenções.
Na bancada de Rondônia, cinco parlamentares votaram pela manutenção da prisão: Expedito Netto, Jaqueline Cassol, Mariana Carvalho, Mauro Nazif e Sílvia Cristina.
Coronel Chrisóstomo, Léo Moraes e Lúcio Mosquini votaram contra.
Na época, críticos da decisão argumentaram que a Câmara estaria abrindo mão de uma prerrogativa constitucional do Poder Legislativo. A controvérsia se concentrou justamente na relação entre os Poderes e nos limites da atuação do Judiciário sobre um parlamentar.
Para setores da direita e do conservadorismo, o episódio passou a ser interpretado como um marco de um processo de desequilíbrio entre os Poderes, especialmente diante da atuação do STF em inquéritos e processos envolvendo parlamentares e apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro.
A resposta das urnas
Cinco anos depois, o cenário político de Rondônia apresenta uma mudança significativa.
Dos nomes que participaram daquela votação, nenhum saiu politicamente fortalecido das urnas de 2026 nos cargos disputados no pleito estadual. Sílvia Cristina, que havia conseguido permanecer como representante federal de Rondônia após 2022, disputou uma das duas vagas ao Senado pelo PP e terminou derrota lda em terceiro lugar, com 304.061 votos, ou 17,03% dos votos válidos.
As duas vagas ficaram com candidatos do PL: Fernando Máximo, com 570.799 votos (31,97%), e Bruno Scheid, com 474.226 (26,56%).
Mariana Carvalho, pelo Republicanos, também disputou o Senado e terminou atrás dos dois candidatos do PL e de Sílvia Cristina, com 207.398 votos, equivalentes a 11,62% dos votos válidos.
Já Expedito Netto disputou o Governo de Rondônia. Terminou a eleição em quarto lugar, com 72.851 votos, ou 7,71% dos votos válidos.
O resultado do Senado é particularmente expressivo: as duas cadeiras em disputa foram conquistadas pelo PL, consolidando a presença da direita bolsonarista na representação do estado. O atual senador Jaime Bagattoli, também do PL, permanece com mandato até 2031.
Jaqueline Cassol e Mauro Nazif já havia sido derrotados nas urnas nas eleições de 2022 e agora repetiram o feito.
Um eleitorado atento às pautas conservadoras
A leitura feita por setores conservadores é que o resultado não pode ser analisado apenas como uma troca de nomes, mas também como reflexo de um eleitorado que acompanha de perto temas como liberdade de expressão e imprensa, segurança pública, propriedade privada, agronegócio, família, anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro e equilíbrio entre os Poderes.
Essa interpretação ganhou força durante a própria campanha de 2026. Bruno Scheid, por exemplo, apresentou entre suas bandeiras a defesa da anistia aos presos pelos atos de 8 de janeiro e o fortalecimento da separação entre os Poderes.
O tema dos chamados “presos políticos” também ocupa espaço importante no discurso de grupos conservadores de Rondônia.
O recado político de 2026
O resultado eleitoral permite permite assimilar os fatos, pois o contraste político é evidente: os candidatos do PL Fernando Máximo e Bruno Scheid conquistaram as duas vagas do Senado, enquanto Sílvia Cristina e Mariana Carvalho ficaram fora.
No Executivo estadual, o também conservador Marcos Rogério, do PL, venceu a eleição para governador no primeiro turno, com 56,86% dos votos válidos, assim como o PL conquistou 3 vagas para a Câmara dos Deputados Federais, sendo Lúcio Mosquini, Coronel Chrisóstomo e Sofia Andrade.
Sob a perspectiva da direita conservadora, o resultado pode ser lido como parte de uma transformação do mapa político rondoniense: um eleitorado que historicamente valoriza pautas de segurança, liberdade econômica, agronegócio e valores conservadores demonstrou, em 2026, preferência majoritária por nomes identificados de maneira mais direta com esse campo político.
O episódio Daniel Silveira permanece, nesse contexto, como uma referência para o debate sobre os limites entre Judiciário e Legislativo. Em 2021, cinco deputados federais de Rondônia votaram pela manutenção da prisão. Em 2026, os eleitores fizeram novas escolhas para representar o estado em Brasília.
Se existe uma lição política a ser extraída do resultado, ela depende da interpretação de cada eleitor. Para a direita conservadora rondoniense, porém, a mensagem é clara: pautas relacionadas à liberdade, à autoridade do voto popular e à separação dos Poderes continuam ocupando espaço relevante na formação da opinião política do estado.